O seu chatbot acabou de dizer a um cliente que ele pode devolver um produto fora do prazo. Ou que o tratamento inclui uma revisão gratuita. Ou que o apartamento tem vaga de garagem. Nada disso é verdade. Mas o cliente já tomou uma decisão com base nessa informação.
Quem tem a responsabilidade legal? O chatbot? A empresa que o usa? A plataforma que o criou?
Já existe jurisprudência respondendo a essa pergunta. E a resposta não agradou à Air Canada.
O caso Air Canada: um chatbot dá informação errada e a empresa paga
Em 2022, Jake Moffatt precisava voar com urgência para o funeral da avó. Antes de comprar a passagem, perguntou ao chatbot da Air Canada se podia usar a tarifa de luto depois de viajar. O chatbot disse que sim: ele tinha 90 dias após o voo para pedir o reembolso parcial.
Era mentira.
A política real da Air Canada diz que a tarifa de luto precisa ser solicitada antes de viajar, não depois. Mas o chatbot explicou errado. Moffatt confiou nessa informação, comprou a passagem pelo preço cheio e, quando pediu o reembolso, foi negado.
Ele levou o caso a um tribunal civil da Colúmbia Britânica, no Canadá. E ganhou.
Quem é responsável quando um chatbot mente? O que o juiz disse
A defesa da Air Canada foi curiosa: argumentaram que o chatbot era "uma entidade legal separada, responsável pelas próprias ações".
O juiz não comprou.
A resposta foi clara: "Embora um chatbot tenha um componente interativo, ele continua sendo parte do site da Air Canada. Deveria ser óbvio para a Air Canada que ela é responsável por toda a informação do seu site. Não importa se a informação vem de uma página estática ou de um chatbot."
A Air Canada teve que pagar 812 dólares canadenses entre reembolso e custas. O valor é pequeno. O precedente, não.
O seu chatbot, a sua responsabilidade
Se você tem um chatbot com IA no seu site respondendo perguntas de clientes, legalmente é você quem responde. Não a plataforma de chatbot. Não a IA. Não uma "entidade separada". Você.
Se o chatbot diz que um tratamento custa R$ 200 e na verdade custa R$ 350, a responsabilidade é sua. Se diz que vocês entregam em todo o Brasil e não entregam, a responsabilidade é sua. Se confirma um horário que não existe, a responsabilidade é sua.
E no Brasil isso nem depende de uma lei nova de IA: o Código de Defesa do Consumidor já estabelece que toda informação ou oferta suficientemente precisa vincula o fornecedor (artigo 30 do CDC). Se o seu chatbot promete, a promessa vale como oferta — exatamente a lógica que o juiz canadense aplicou à Air Canada.
A regulação da IA: o Marco Legal brasileiro e a lei europeia
O Brasil está a caminho de ter a sua própria lei de inteligência artificial: o PL 2338/2023, o chamado Marco Legal da IA. Foi aprovado por unanimidade no Senado em dezembro de 2024 e tramita na Câmara dos Deputados, com votação final prevista para 2026. O texto segue o modelo europeu: classifica os sistemas de IA por nível de risco, exige transparência e prevê sanções que podem chegar a R$ 50 milhões por infração.
Enquanto a lei não chega, valem o CDC (para a informação que o seu chatbot dá ao consumidor) e a LGPD (para os dados pessoais que ele coleta — nome, telefone, e-mail de quem conversa com ele).
E se a sua empresa vende para clientes europeus, há mais uma peça: o EU AI Act, a regulação de IA mais ambiciosa do mundo, cuja maior parte entra em aplicação em 2 de agosto de 2026. Um chatbot de atendimento ao cliente cai na categoria de "risco limitado", o que implica uma obrigação concreta: transparência. Os seus clientes precisam saber que estão falando com uma IA, não com uma pessoa.
O detalhe importante: o PL brasileiro adota exatamente a mesma lógica. Ou seja, a transparência não é uma exigência exótica de Bruxelas — é para onde caminha a regulação aqui também. Quem se adaptar agora não precisa correr depois.
Quais são as multas?
Na Europa, as sanções do EU AI Act chegam a 35 milhões de euros ou 7% do faturamento global — para empresas menores, calcula-se sobre o menor dos dois valores, então uma empresa pequena não paga a cifra apocalíptica das manchetes. No Brasil, o texto do PL 2338 prevê multas de até R$ 50 milhões por infração — também com gradação conforme o porte e a gravidade.
Continua sendo muito dinheiro. Mas o caminho para não pagar nada é simples e está descrito logo abaixo.
O meu chatbot é de "alto risco"?
Depende do uso, não da tecnologia. O mesmo modelo de IA pode ser risco mínimo se você o usa para redigir e-mails internos, risco limitado se é um chatbot de atendimento ao cliente, ou alto risco se filtra candidatos em um processo seletivo.
Se o seu chatbot simplesmente responde perguntas sobre os seus produtos ou serviços, as obrigações são razoáveis: transparência e dados corretos. Você não precisa de um departamento jurídico para cumprir.
Como se proteger da responsabilidade legal do seu chatbot
Depois do susto, o lado prático.
1. Que o chatbot não invente
O problema da Air Canada não foi ter um chatbot. Foi o chatbot dar informação errada.
Se o seu chatbot é treinado com os seus dados reais e atualizados, a probabilidade de ele inventar cai drasticamente. Os chatbots com RAG (Retrieval-Augmented Generation) buscam nos seus documentos antes de responder, em vez de improvisar.
E se os seus dados mudam? Se você sobe os preços, muda as condições de um serviço, deixa de entregar em certa região, o chatbot precisa saber. Dados desatualizados são os que colocam você em apuros. Se você usa um chatbot com sincronização automática de dados, esse problema desaparece: atualiza a sua planilha e o chatbot já sabe.
2. Que o usuário saiba que é uma IA
O chatbot não inventar protege você de processos como o da Air Canada. Ele avisar que é uma IA protege você das exigências de transparência — as do EU AI Act se você atende a Europa, e as que o Marco Legal brasileiro deve trazer. São riscos diferentes, e você precisa cobrir os dois.
Além de exigência regulatória, é boa prática de qualquer jeito. Um aviso claro de que a pessoa está falando com um assistente virtual.
Não precisa de um aviso legal de 47 parágrafos. Basta que o nome do chatbot, a mensagem de boas-vindas ou um texto no widget deixe claro que é um bot.
3. Que tenha saída para um humano
Um chatbot não deveria ser um muro. Se a consulta é complexa, se o cliente insiste, se há um problema real, tem que haver uma forma de falar com uma pessoa. Um e-mail, um telefone, um formulário.
O chatbot ajuda com os 80% de perguntas repetitivas. Os 20% restantes precisam de alguém da sua equipe.
4. Que não faça promessas
O chatbot da Air Canada "confirmou" que Moffatt podia pedir o reembolso depois. Se em vez de confirmar tivesse dito "segundo a nossa política, consulte os detalhes em [link] ou fale com a nossa equipe", provavelmente não teria havido processo.
Instruções claras no prompt do chatbot: não confirmar reservas, não garantir preços que podem mudar, não prometer prazos que você não pode cumprir. Informar, não se comprometer.
Não seja a Air Canada
Um chatbot no seu site é uma ferramenta útil. Mas não é um estagiário que você pode ignorar. O que o seu chatbot diz, é você quem está dizendo.
A boa notícia é que se proteger não é difícil: dados atualizados, transparência, saída para humano e um prompt bem configurado. São coisas que melhoram a experiência do cliente de qualquer jeito, com ou sem regulação.
Aliás, é exatamente o que fazemos na Bravos AI. Os nossos chatbots respondem só com os dados que você fornece e sincronizam automaticamente quando você os atualiza. E você decide o nome, a mensagem de boas-vindas e o tom — o suficiente para ficar claro que é um bot, sem avisos que assustem.
A Air Canada tentou jogar a culpa no chatbot. O juiz disse que não.
Não seja a Air Canada.
Perguntas frequentes
Quem é responsável se um chatbot dá informação errada?
A empresa que o usa. O caso Moffatt v. Air Canada estabeleceu que um chatbot é parte do site da empresa, e a empresa é responsável por toda a informação do seu site, venha de uma página estática ou de um chatbot. No Brasil, o artigo 30 do Código de Defesa do Consumidor leva à mesma conclusão: a informação vincula o fornecedor.
Os chatbots têm que avisar que são IA?
Na Europa, sim: a partir de agosto de 2026, com o EU AI Act, os sistemas de IA que interagem diretamente com pessoas devem informar que o usuário está falando com uma IA. No Brasil, o Marco Legal da IA (PL 2338/2023), em votação final na Câmara, adota a mesma exigência de transparência. Mesmo antes de virar lei, é boa prática.
O que acontece se o meu chatbot for de "alto risco"?
Depende do uso. Um chatbot de atendimento ao cliente é "risco limitado" (só transparência). Mas se o seu chatbot filtra candidatos, avalia crédito ou toma decisões que afetam diretamente pessoas, é "alto risco" e exige avaliações de impacto, documentação técnica e supervisão humana — tanto no modelo europeu quanto no texto do PL brasileiro.
Quanto pode custar descumprir essas regulações?
Na União Europeia, as multas do EU AI Act chegam a 35 milhões de euros ou 7% do faturamento global (para empresas menores, calcula-se sobre o menor dos dois valores). No Brasil, o texto do PL 2338/2023 prevê sanções de até R$ 50 milhões por infração, com gradação por porte e gravidade.
Fontes
- The Hill — Air Canada must pay refund promised by AI chatbot, tribunal rules — Cobertura da decisão do CRT da Colúmbia Britânica
- McCarthy Tétrault — Moffatt v Air Canada: Misrepresentation by AI Chatbot — Análise jurídica do caso 2024 BCCRT 149
- American Bar Association — BC Tribunal Confirms Companies Remain Liable for Information Provided by AI Chatbot — Análise da ABA sobre a responsabilidade das empresas por chatbots
- Senado Federal — PL 2338/2023 (Marco Legal da IA) — Tramitação oficial do projeto de lei brasileiro de inteligência artificial
- EU AI Act — Article 50: Transparency obligations — Obrigações de transparência para sistemas de IA na União Europeia
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